A cor da torra do café, claro, médio ou escura, faz diferença mesmo?

Falar de cor de café é falar de cultura, os gostos e costumes ao redor do mundo são diferentes, a torra de cafés não se ausenta disso, chamar um café de “torra clara” é relativo ao que é considerada uma “torra escura”, tome por exemplo a tradicional diferença entre torra italiana e francesa, onde a primeira é mais escura que a segunda, mesmo sendo a francesa mais clara, hoje para parâmetros mais modernos, ainda assim não é considerada uma “torra clara”. Ainda na parte cultural, podemos observar outra referência, o Café Árabe (não é o Turco), onde esse sim tem uma torra que pode ser considerada clara até pelo mais crítico “analisador de torras claras” pois é uma torra que fica (para nossa cultura) subtorrada, onde a adstringência devido a esse estilo, é mascarada pelo preparo de dezenas de minutos em infusão com cardamomo e outras especiarias. Algumas pessoas se referem à torra clara como torra Nórdica, o que é um erro, tanto por generalizar uma grande região de diferentes tradições e influências quanto por ignorar que não é só a cor que classifica a torra, mas todo andamento do processo de torra.

Então torra clara não é uma novidade, na verdade é um termo que pode causar um certo mal entendimento. Sabemos que diferentes variedades, altitudes, processos de pós colheita etc, resultam em diferentes tonalidades no café torrado, logo, simplesmente tentar replicar a cor de um café que está delicioso em outro café diferente, não é garantia de resultado positivo, você pode ter um café aparentemente mais claro, com notas de queimado, enquanto outro café mais escuro está sem notas de queimado.

O que já nos carrega a outro ponto, a forma em que é analisada a cor. Observar superficialmente o café não quer dizer nada, mesmo para a visão mais perfeita até para um equipamento de alta precisão, a superfície corresponde a uma pequena parte do café, quando moído, aí sim é possível ter uma verdadeira noção de cor. Faça o teste, faça duas torras terminarem com a mesma cor superficial, porém uma delas você faz de forma mais lenta no final. Será nítido como a torra que termina mais rápido, quando moído terá aparência mais clara que a torra mais lenta.

Falando em cafés de qualidade, o foco é o resultado final, o sensorial, a cor é apenas uma consequência, uma ótima característica de controle de qualidade, não mais que isso. A forma em que o café é torrado influencia na sua cor, influencia também no resultado sensorial, inclusive é possível fazer torras diferentes em um mesmo café que resultam na mesma cor mas o perfil sensorial é diferente, além do que, as diferenças mais sutis de torra, podem produzir resultados muito diferentes, mas as diferenças de cores não serem perceptíveis a olho nu. No fim das contas, torra clara, média, escura, são termos que em um certo nível de qualidade e precisão são obsoletos, mas que continuam sendo referência em grande parte do mercado (geralmente causando mais confusão do que solução).

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